Não deixe a serpente decidir por ti.

Pedro Zomer Juncklos

5/2/20263 min read

Não deixa a serpente decidir por ti. Ela sempre estará ao pé do teu ouvido, dizendo apenas uma palavra: Eu. E quanto mais tu a escutas, mais aumenta tua cegueira e tua surdez; sedento, já não sentes o cheiro do veneno que estás tomando.

O que, no início, era um abraço caloroso, agora te amarra. Sem poder se mexer, as escolhas parecem não existir; sem escolhas, não há responsabilidade, não há peso. Uma vida sem peso não é leve: é vazia. Apenas flutua, como sacola plástica à mercê dos ventos — capaz até de pular de um prédio quando a própria serpente se afoga no veneno.

O que resta após a queda?

Paralítico, tu te encontras no inferno. Um lugar horroroso; ainda bem que é assim. Há lugares que só servem porque obrigam a sair deles.

E como se faz isso?

Já paraste de beber o veneno? Então para agora de ouvir a serpente. Tu já estás nos primeiros passos. Estendo-te a mão. Difícil confiar depois que até a serpente te abandonou? Ou ela ainda está aí, rosnando contra mim?

Bom: fica o convite.

A serpente é. Mas tu, tu não és; tu vieste a ser. Vieste de outro ser, que também veio a ser. A ilusão serpentina é esta: o ser isolado, dizendo-se livre, procurando sentido para a própria existência. Não importa o quanto tente, o Eu não consegue encontrar sentido em si mesmo. O eu solipsista, centro do universo, é, polindo-se a lente, um outro; ainda, apenas um outro entre muitas alteridades.

Não estou tentando te convencer. Estou oferecendo a ti uma alternativa. Vai doer, sim. Doeu em mim. Dói em todos que passam por aqui. Afinal, é um inferno.

Vamos lá: cospe a bílis. Dá um baita arroto. Confia, vais te sentir melhor.

Aí, agora abre os olhos.

Tu esqueceste como se faz isso?

Estás olhando este pequeno demônio na tua frente, sofrendo entre as chamas? Para de objetificá-lo com o olhar. Vê como ele recua quando tua mão chega rápido demais. Vê o canto da boca. Vê que ele também aprendeu o inferno antes de aprender teu nome.

Vê, agora, como vida. Vida que luta para permanecer viva e produzir mais vida. Não vida em abstrato: vida com dente, baba, medo, unha, ferida, hálito, fome. Vida que talvez te morda porque ainda não sabe pedir ajuda.

É um salto no escuro, um ato da mais pura esperança — mas esperança suja, esperança com joelho no chão, esperança que não limpa a ferida antes da pinça.

Cuida dele agora. Pode ser que ele te morda. Cuida mesmo assim. Não porque ele vá te salvar. Não porque ele exista para dar sentido à tua vida. Cuida porque ele está queimando.

E, no ato de cuidar, talvez tua vida ganhe peso.

Tu vais melhorando no ato de cuidar. Começarás a ver outros que precisam de cuidado. Para alguns demônios, basta vê-los no lugar de olhá-los. Para outros, é preciso ficar perto o bastante para que o fogo não coma tudo; longe o bastante para não transformar o outro em função da tua salvação.

E onde isso vai dar?

Não sabemos. Mas cuidamos.

Somos, desde já, ancestrais, ainda que nosso tempo ainda não tenha se desdobrado. Cada ato deixará uma marca — nem sempre no coração da eternidade; às vezes numa árvore que alguém protegeu, numa flor que ainda abre, num animal que não morreu, numa pessoa que respirou mais um dia, num pequeno demônio que hoje não precisou morder.

O que achaste? Responsabilidade demais?

É este peso, esta gravidade, que talvez torne possível voar. Como passarinhos.

Vê: não estamos mais no inferno.

Aqui podemos respirar ar fresco. Sente a temperatura. Vê as flores. Tudo isso está aqui porque alguém, ou algumas alteridades, cuidou: protegeu estas árvores, estes animais, estas pessoas; ficou quando era mais fácil sair; sustentou o peso quando a serpente dizia apenas Eu.

Proteger, perguntas?

Sim. Outras pessoas caem na tentação da serpente. Eu mesmo dou umas escorregadas diárias, como esta. De tal modo que não podemos esquecê-la: se não cuidarmos dela, se apenas a odiarmos, voltamos a olhá-la como coisa. E, olhando-a como coisa, deixamos de vê-la. E, deixando de vê-la, caímos outra vez no veneno.

A serpente volta.

Ela sempre volta.

Mas agora tu sabes escutar o som antes da mordida. Sabes o gosto da bílis. Sabes que o Eu, sozinho, é uma sala fechada com ar ruim. Sabes que a mão estendida não salva ninguém sem custo. Sabes que o cuidado pesa; e que é justamente esse peso, esta gravidade, que impede a sacola plástica de confundir vento com liberdade.

Então respira.

Não como quem venceu.

Como quem aceitou vigiar.

Não deixa a serpente decidir por ti