Amor platônico

Das capturas afetivas imaginárias

TEXTO

6/9/20263 min read

Você não precisa deixar de amar para voltar ao mundo

Há momentos em que uma pessoa deixa de ocupar apenas um lugar afetivo e passa a organizar silenciosamente quase tudo. Uma música parece falar dela. Uma notificação acelera o corpo antes mesmo de ser aberta. Uma conversa antiga é relida como se escondesse uma passagem secreta. Um gesto pequeno sustenta uma esperança inteira.

O problema não é sentir intensamente. Também não é amar alguém que não pode ou não deseja viver a mesma relação. O problema começa quando uma pessoa real, com limites e escolhas próprias, transforma-se no único caminho possível para a beleza, o desejo, o reconhecimento e a sensação de estar vivo.

Nesse ponto, o amor já não circula. Ele gira.

O mecanismo é sutil. A ausência produz expectativa. A expectativa alimenta pequenos rituais: verificar um perfil, imaginar conversas, reler mensagens, interpretar silêncios, repetir uma música, retornar mentalmente ao mesmo instante. Esses rituais oferecem alguns segundos de proximidade imaginária. Logo depois, nada mudou. A ausência volta mais intensa. E o circuito recomeça.

A captura possui horários, objetos e atmosferas: a tela acesa de madrugada, o quarto silencioso depois das 23h, a fotografia guardada, o corpo tenso, a respiração curta, a dificuldade de prestar atenção ao que está diante de você. Aos poucos, outras experiências parecem perder cor. Não necessariamente porque sejam pobres, mas porque toda a energia foi concentrada em um único ponto.

A intensidade é verdadeira. Mas intensidade não é prova de reciprocidade. A repetição também produz intensidade.

A primeira fresta aparece quando você deixa de perguntar apenas “como faço para esquecer?” e começa a perguntar: “como este circuito funciona em mim?”. O que costuma ativá-lo? Solidão? Cansaço? Tédio? Desejo de acolhimento? O que essa pessoa passou a representar além dela mesma? Liberdade? Erotismo? Coragem? A promessa de que outra vida seria possível?

Depois, separe com delicadeza o que aconteceu de fato daquilo que foi acrescentado pela fantasia. O que a pessoa realmente disse? O que efetivamente fez? Que disponibilidade demonstrou? Que limite comunicou? E o que você construiu a partir de silêncios, gestos mínimos e possibilidades nunca confirmadas?

Fantasiar não é uma falha moral. Mas amar alguém também significa libertá-lo da obrigação de corresponder ao personagem criado dentro de nós.

A saída raramente acontece como uma ruptura grandiosa. Ela começa em pequenas diferenças: silenciar uma notificação, não reler mensagens depois da meia-noite, mudar a música antes que ela conduza novamente ao mesmo roteiro, retomar uma atividade breve, conversar com alguém sem voltar ao mesmo assunto, fazer algo que tenha valor mesmo que ninguém veja.

Sentir não é obedecer.

Perceber o circuito, nomear o gatilho, separar fato de fantasia, interromper um pequeno ritual e escolher uma ação concreta que reabra o mundo. Depois, repetir. Não para se tornar indiferente, mas para recuperar pluralidade.

A pergunta não é “já consegui esquecer?”. A pergunta mais importante é: “minha vida ganhou hoje pelo menos mais um centro?”.

A saída não é apagar o desejo. É devolver movimento a ele.

Você não precisa deixar de amar para começar a voltar ao mundo.

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